Bolívia protege corredor importante entre florestas secas e o Pantanal
Serra de Sunsas será uma área protegida crucial para aves e água doce
Encaixada entre as florestas secas de Gran Chaco e Chiquitano e as planícies do Pantanal no sudeste da Bolívia, a Serra de Sunsas é uma cadeia de montanhas escarpadas que faz parte do Escudo Brasileiro Pré-Cambriano, uma das formações geológicas mais antigas da América do Sul. As aflorações rochosas e diversidade do terreno abrem espaço para uma paisagem heterogênea que engloba várias ecorregiões e rica biodiversidade. A serra tem função ecológica fundamental, capturando e regulando os fluxos que deságuam no Pantanal, o maior pântano tropical do mundo.
Agora, o município de San Matías, na Bolívia, designou oficialmente a Serra de Sunsas como reserva de vida selvagem, protegendo mais de 86,509.1 hectares (uma área maior do que a cidade de Nova York), reforçando as conexões ecológicas, com destaque para as iniciativas de preservação das comunidades locais.
Uma das coisas mais importantes de Sunsas é sua função de corredor entre ecossistemas, favorecendo a diversificação genética e protegendo nascentes vitais para a população da região.
Para essas pessoas, mais do que um recurso a ser preservado, a floresta é parte indissociável do cotidiano. Ela regula os ciclos hídricos que fornecem água potável e permite práticas sustentáveis que geram renda e materiais indispensáveis, além de melhorar a resistência da região a ameaças climáticas como os incêndios.
A região também é abrigo importante de aves como o urubu-rei, uma ave de rapina de plumagem branca e cabeça colorida de laranja, amarelo e vermelho, e do maracanã-de-colar, um papagaio de hábitos sociais com vívida plumagem verde e o característico pescoço amarelo que lhe dá o nome. Outro habitante da região é elegante mutum-de-penacho, ave em estado vulnerável de conservação cuja presença sinaliza um ecossistema saudável. Somente na ecorregião da floresta seca de Chiquitano, no leste da Bolívia, os cientistas já documentaram 547 espécies de aves, o que corresponde a 37% da população aviária do país. Estudos recentes em Sunsas registraram 176 espécies.
A conservação da região é considerada prioritária há muito tempo na Bolívia, pois ali se concentram recursos hídricos e biodiversidade importantes para o país, além de várias espécies que não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. Ela também é fundamental para a conexão entre áreas protegidas e comunidades locais, principalmente nesta época de pressão climática, como secas prolongadas e incêndios florestais cada vez mais graves.
A reserva de Sunsas agora interconecta uma rede cada vez maior de áreas protegidas a nível nacional, departamental e municipal, como a Área Natural de Manejo Integrado de San Matías, a área protegida municipal e departamental de Tucabaca, a área protegida municipal de Paquio, a Reserva Municipal de San Rafael, a Área de Conservação e Importância Ecológica de Ñembi Guasu e o Parque Nacional Kaa-Iya do Gran Chaco. Juntas, essas áreas formam uma paisagem protegida com mais de 8 milhões de hectares, mais ou menos o dobro do tamanho da Costa Rica.
Freddy Román, presidente da Câmara Municipal de San Matías, enfatizou o compromisso do município com o apoio às comunidades locais com o reconhecimento do valor intrínseco da Serra de Sunsas e seus ecossistemas, nascentes e patrimônio cultural. Em discurso durante o evento público em que a Câmara apresentou a lei que criou a nova área protegida, Román destacou a responsabilidade compartilhada de proteger essa paisagem para os residentes atuais e também para as gerações futuras.
Liderança local promove preservação
A colaboração com comunidades indígenas, governos municipais e parceiros de conservação foi fundamental para estabelecer a reserva. Para esse trabalho, um comitê gestor local, com representantes de cinco comunidades do Território Indígena do Pantanal, ajudou a definir a governança, garantindo o alinhamento da proteção com os direitos das comunidades e seus patrimônios culturais.
José Antonio Tomichá, professor e líder comunitário de Bahia Negra, que faz parte do Território Indígena do Pantanal da Bolívia, explica: “A nova área protegida nos traz mais oportunidades para enfrentar a escassez hídrica. Durante a seca, cavamos poços, ou pauros, para conseguir água, e às vezes, mesmo suja, é a única água que temos para beber.”
Sunsas já enfrentou pressão crescente da agricultura, mineração e pecuária, além de cada vez mais incêndios, mas o status de área protegida cria uma estrutura de gestão proativa, monitoramento coordenado, prevenção de incêndios e pesquisa científica numa região que até hoje não tinha dados ecológicos abrangentes. Além disso, a reserva pode servir como modelo para outras iniciativas de preservação locais.
Conserva Aves: apoio às lideranças locais
O projeto da área protegida contou com o apoio da Conserva Aves, uma iniciativa das instituições American Bird Conservancy, National Audubon Society, BirdLife International, Birds Canada, e RedLAC, com o apoio do Bezos Earth Fund. Essa iniciativa promove a criação de regiões subnacionais protegidas conforme as necessidades locais. Na Bolívia, a implementação está sendo liderada pela FUNDESNAP e a Asociacíon Armonía Civil, com apoio técnico da Fundação CERAI, científico do Museu de História Natural Noel Kempff Mercado e ainda da The Pew Charitable Trusts.
Ação local com significância global
Sunsas demonstra como a governança local e a colaboração multilateral podem realizar metas de preservação de relevância global. No relatório de 2010 intitulado “Prioridades para Preservação da Biodiversidade na Bolívia”, o governo do país identificou Sunsas como área crucial para preservação da biodiversidade e, no final de 2025, essa prioridade se concretizou em proteções legais para essa nova área de reserva municipal.
O foco agora passa a ser garantir resultados estáveis na reserva em termos de biodiversidade, comunidades e resiliência climática. O município de San Matías, com apoio da Fundação CERAI, está dando os primeiros passos para o lançamento de seu plano inicial de manejo, inclusive com contratação de pessoal para proteger esse viveiro de biodiversidade essencial para a estabilidade ecológica da região.
Natália Araújo gerencia o trabalha no projeto de conservação do Pantanal e do Gran Chaco para The Pew Charitable Trusts.